Casta Castelão
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A casta Castelão é uma das mais emblemáticas do património vitivinícola português. Durante muito tempo foi conhecida como Periquita, nome que se popularizou graças à visão de José Maria da Fonseca, que no século XIX plantou varas desta uva na Cova da Periquita, em Azeitão. O sucesso dos vinhos aí produzidos foi tão grande que o nome acabou por se confundir com a própria casta. Oficialmente designada Castelão, esta variedade foi também chamada de João Santarém, Castelão Francês, Trincadeira (sem relação com a verdadeira Trincadeira) e Tinta Merousa em diferentes regiões do país. A multiplicidade de nomes revela a sua longa história e disseminação por boa parte do território nacional, assim como o seu papel central no desenvolvimento do vinho português.
O seu território
Trata-se da casta tinta mais cultivada no sul de Portugal, com forte presença nas regiões de Lisboa, Tejo e Alentejo, mas é sobretudo na Península de Setúbal que atinge a maior notoriedade. Ali, ocupa grande parte das vinhas, sobretudo em solos arenosos de Palmela e Poceirão, onde o clima quente e seco favorece a sua maturação. As vinhas velhas e de baixa produtividade revelam o melhor do seu potencial, dando origem a vinhos estruturados, densos e capazes de envelhecer durante muitos anos. Ainda que tenha perdido expressão noutras regiões, onde foi sendo substituída por castas mais procuradas no mercado internacional, continua a ser um verdadeiro símbolo de identidade para a Península de Setúbal.
Perfil de aromas e sabores
O perfil dos vinhos de Castelão é marcado pela rusticidade, com taninos firmes e uma acidez vincada, características que garantem longevidade e capacidade de evolução em garrafa. Nos aromas, apresenta notas muito expressivas de groselha, ameixa em calda e frutos silvestres como a amora e a framboesa. Em exemplares mais maduros ou sujeitos a estágio em madeira, podem surgir nuances de caça, tostados e complexidade que, em grandes colheitas, lembram até vinhos de Cabernet Sauvignon com vários anos de garrafa. Essa dualidade faz do Castelão uma casta de contrastes: tanto pode originar vinhos jovens, simples e frutados, fáceis de beber no dia a dia, como rótulos de grande estrutura, capazes de surpreender colecionadores e apaixonados pelo vinho.
Entre a tradição e o futuro
Ao longo do tempo, o Castelão foi também protagonista em debates sobre a evolução das regiões vitivinícolas. Durante décadas foi a casta tinta mais plantada em Portugal, mas com o avanço de variedades estrangeiras e outras nacionais e a mudança de gostos, muitas vinhas foram arrancadas. Ainda assim, permanece como guardiã da memória vitícola portuguesa, sobretudo em Palmela e em toda a Península de Setúbal, onde se tornou indissociável do carácter local. Perder o Castelão seria, para muitos, descaracterizar a região e diluir a sua identidade cultural e enológica.
Harmonização
Na mesa, mostra-se igualmente versátil. A sua estrutura equilibrada e acidez intensa fazem-na uma parceira ideal, tanto para pratos leves e contemporâneos como os mais tradicionais portugueses. Liga de forma harmoniosa com peixe assado no forno, com charcutaria e com queijos curados de pasta semidura. Nos exemplares mais complexos, e de notória maturidade, o casamento com carnes assadas ou caça ganha ainda mais expressão, reforçando a sua ligação à gastronomia nacional.
Um clássico português
Mais do que uma simples casta, Castelão é um pedaço vivo da história do vinho português. É a prova de como uma variedade local pode construir identidade, atravessar gerações e continuar a emocionar quem a prova, seja num copo descomplicado do dia a dia ou num grande vinho de guarda que surpreende pela sua longevidade.