Vinhos de Curtimenta ou Orange Wines: Sabe o que são?
Descubra aqui a nossa seleção de Vinhos de Curtimenta.

Já ouviu falar em vinhos de curtimenta? Conhecidos também como orange wines, são vinhos brancos produzidos de forma muito particular: tal como nos tintos, as películas e grainhas da uva permanecem em contacto com o mosto durante a fermentação. Este detalhe muda tudo. A cor ganha reflexos dourados ou alaranjados, a boca revela estrutura, taninos e adstringência raros em brancos convencionais, e os aromas tornam-se mais intensos e complexos.
Uma técnica antiga que regressou
Embora hoje apareçam como uma tendência moderna, os vinhos de curtimenta são, na verdade, uma das formas mais antigas de vinificação. Na Geórgia, há mais de cinco mil anos, já se produziam em grandes ânforas de barro chamadas qvevri, enterradas no solo para fermentar as uvas em contacto com as películas. Esta tradição espalhou-se pelo Mediterrâneo e, apesar de ter perdido força com o passar dos séculos, nunca desapareceu por completo.
No final do século XX, produtores do norte de Itália e da vizinha Eslovénia recuperaram esta prática, devolvendo-lhe protagonismo. Desde então, os vinhos de curtimenta conquistaram cartas de restaurantes de topo e wine bars em cidades como Londres, Nova Iorque ou Copenhaga.
Em Portugal, a ligação é ainda mais direta: os vinhos de talha do Alentejo são, em muitos aspetos, vinhos de curtimenta. Fermentados em ânforas com películas, mantêm viva uma tradição que nos aproxima do berço da vinificação. Hoje, para além do Alentejo, outras regiões portuguesas também exploram este estilo, num movimento que alia património cultural e ousadia contemporânea.
Como se produzem
A diferença entre um vinho branco convencional e um vinho de curtimenta está na decisão de não separar imediatamente as películas após o esmagamento. Esse contacto pode durar apenas alguns dias ou prolongar-se por meses inteiros. O recipiente usado também influencia: alguns produtores optam por ânforas de barro, outros por cubas de inox ou mesmo barricas de madeira.
A escolha de cada enólogo determina o perfil final. Há vinhos mais leves e aromáticos, e outros mais densos, com taninos marcantes e notas oxidativas. O que os une é a autenticidade: em muitos casos são produzidos com fermentações espontâneas, leveduras indígenas e mínima intervenção, refletindo uma filosofia próxima da dos vinhos naturais.
Carácter e perfil sensorial
Um vinho de curtimenta não é um branco “normal”. A cor varia entre o dourado profundo e o âmbar, com reflexos alaranjados inconfundíveis. No nariz, os aromas evocam casca de laranja, chá preto, frutos secos, mel e especiarias, muitas vezes acompanhados de notas de oxidação que lembram fruta cristalizada.
Na boca, a surpresa é ainda maior. O corpo é cheio, a acidez firme e os taninos estão presentes, conferindo textura - por vezes um pouco secante e adstringente - e persistência. São vinhos que pedem tempo, atenção e curiosidade de quem o prova. Não são lineares, nem sempre fáceis, mas a sua complexidade torna-os memoráveis.
Harmonização
Se há característica que define os vinhos de curtimenta é a sua capacidade de brilhar à mesa. A estrutura e a acidez tornam-nos ideais para pratos que desafiam brancos e tintos tradicionais. Em Portugal, são ótimos companheiros de peixe no forno, polvo à lagareiro, bacalhau assado, cabrito ou coelho. Também harmonizam com queijos curados e enchidos artesanais, equilibrando a intensidade dos sabores.
A nível internacional, revelam-se perfeitos para a cozinha de especiarias: caris indianos, tajines marroquinos, pratos picantes mexicanos ou fermentados asiáticos como kimchi e miso. A sua versatilidade explica porque são considerados verdadeiros “vinhos gastronómicos”, capazes de se adaptar a mesas muito distintas.
Uma tendência em crescimento
De nicho pouco conhecido, os vinhos de curtimenta passaram a símbolo de autenticidade e diferenciação. No estrangeiro, são presença obrigatória em espaços dedicados ao vinho natural e à gastronomia contemporânea. Em Portugal, embora a produção ainda seja limitada, cresce a cada ano, tanto pela recuperação da tradição das talhas como pela vontade de novos produtores em explorar este caminho.
O consumidor português também começa a olhar para estes vinhos com mais curiosidade. São cada vez mais procurados por quem gosta de sair do óbvio e descobrir experiências diferentes no copo.
Conclusão
Os vinhos de curtimenta não são vinhos de consenso imediato. São intensos, complexos, às vezes desafiantes. Mas é justamente essa diferença que os torna especiais. Beber um copo de curtimenta é viajar no tempo, regressando às origens da vinificação, e ao mesmo tempo acompanhar uma das tendências mais interessantes da atualidade.
Se procura algo fora do comum, capaz de transformar uma refeição numa experiência, a resposta pode estar neste estilo único.